Até mais minha Coreia

Até mais Coreia!

Eu fui para a Coreia do Sul pela primeira a vez a trabalho, em Março de 2011, e depois fui novamente no mesmo ano. Depois de muitas indas e vindas em Maio de 2012 empacotei minha vida em duas malas de 32Kg e fui morar em Busan, cidade portuária, no sul da Coreia do Sul.

Em Dezembro de 2013 finalizei meu contrato com a empresa para qual trabalhava e fui viajar pela Ásia. Foram 6 meses viajando e planejando os novos passos da minha vida. Quando saí em Dezembro deixei minhas malas com uma amiga, porque eu voltaria em Janeiro, mas terminei adiando meu retorno. Eu não pensava mais que fosse voltar a esse país, já estava pedindo a meus amigos para me ajudar colocando minhas roupas em caixas e mandando via correios para o Brasil, mas de repente me vi comprando passagens pra voltar pra Coreia para ficar 1 semana, pegar minhas coisas, e rever quem ainda está por lá.

Nesse momento estou escrevendo do avião, no vôo de Busan para Kuala Lumpur. Que semana louca!

Meu primeiro choque foi perceber quão superficiais podem ser os relacionamentos com as pessoas quando se vive como expatriado. Muitas das pessoas que eram meus amigos pareceram estranhos, acredito que estão acostumados a ter constantemente amigos chegando e partindo, fazendo sempre novas amizades, não sei. Que situação!

Minha maior alegria foi perceber quão profundos podem ser os laços com aqueles que escolhemos para ser nossos amigos, e estar do nosso lado como se fôssemos familiares. Que gostoso foi rever alguns deles (poucos e bons) e que bom que foram os abraços (já tô toda chorosa aqui escrevendo isso).

Aproveitei a semana pra matar a saudade de alguns dos meus cantinhos preferidos na cidade, comer bastante comida coreana (meu Deus, eu AMO muito), mas ontem a ficha caiu “nunca mais vou voltar aqui”. Quando saí de lá em Dezembro eu estava bem, pois ia voltar 1 mês depois, não tive despedida nem nada, mas dessa vez foi diferente.

“Última vez reclamando do cheiro de alho no metrô”.

“Última noite apreciando a ponte de Gwangalli toda iluminada”.

É claro que em uma semana não deu tempo de rever ou fazer tudo o que eu queria, então eu chorei. Hoje pela manhã, cansada depois de uma noite de festa com amigos, com as malas pra finalizar e o ponteiro do relógio correndo todo ligeiro, eu parei. Estava na casa de um amigo irlandês que está no Brasil para a Copa do Mundo, e que fica de frente pra praia. Oras, coloquei o biquini e fui dar um mergulho rapidinho naquela água congelante da “minha” praia. Enquanto estava lá tantas memórias vieram a minha mente (Agora já tô chorando mesmo no avião). Aquela sempre foi a praia onde me encontrava com meus amigos, sempre! Tantas lembranças, bons momentos, inesquecíveis momentos, e até alguns não tão bons assim. Chorei, chorei muito, sem medo de ser notada. Que estranho que é morar em um local por quase 3 anos e de repente se ver em seu último dia lá.

Quando saí do Brasil não tive esse problema, pois sei que sempre vou voltar pra lá, mas a Coreia….. A maioria dos meus bons amigos já não mora mais lá, as chances de eu ir visitar de novo são bem remotas. Então bateu o sentimento.

Não vou mais ver as senhorinhas (ajummas) com suas grandes viseiras e roupas de exercício.

Não vou mais reparar todas as meninas super cheias de maquiagem no metrô.

Não vou mais praticar essa lingua difícil todos os dias.

Não vou mais pra “minha” praia, ver a “minha” ponte toda bonita e iluminada a noite.

Não vou mais pra casa do Fernando ou do Ross encontrar com todo mundo antes de sair no sábado.

Não vou mais pro Halloween em Kyungsung.

Não vou mais fazer compras em Nampo Dong, ou pros sofisticados cinemas do Shinsegae.

Não vou mais morrer de frio e vestir trocentas roupas pra aguentar o inverno coreano.

Não vou mais dirigir minha scooter todos os dias pro trabalho, que tempo feliz que foi esse!

Não vou mais ser a única estrangeira em todo lugar que eu vou, e atrair olhares curiosos de pessoas de todas as idades.

Não vou mais fazer compras usando mímicas.

Não vou mais fazer reverência quando cumprimentar as pessoas, ou utilizar as duas mãos ao entregar e receber cartão de visitas.

Não vou mais beber Soju (acho que esse é um ponto positivo!).

Não vou mais ficar encantada com aquela cidade cosmopolita, cheia de luzes em Neon, trem bala, prédios super modernos e sofisticados.

Não vou mais ser abordada por crianças nas ruas que só querem dizer “Hello” pra um estrangeiro, e sair correndo envergonhadas, ou por adolescentes que querem postar no facebook fotos com estrangeiros.

Não vou mais reparar quão preparados os coreanos são. Se tem uma máquina fotográfica ela é sempre a melhor, com todos os acessórios possíveis. Se vão jogar boliche, todos têm suas mochilas com suas próprias bolas, sapatos próprios, acessórios e mais acessórios.

Não vou mais achar graça quando ouvir que a praia tem data pra abrir e fechar, que você não pode ir pro mar depois das 7 da noite, e que só pode nadar em um local específico.

Não vou mais encontrar conhecidos em todos os lugares aonde estou. Busan tem isso. Os estrangeiros sempre se encontram sem combinar, em todo lugar que vão.

Não vai mais ter a “casa da Mari”.

 

A Mari já não está mais lá. E isso é chato.

 

A Coreia foi a melhor coisa que aconteceu pra mim na vida até agora. Ter tido a oportunidade de sair do Brasil foi muito engrandecedor (Obrigada Wolney – meu chefe em 2011 que me mandou pra lá). Conheci uma cultura totalmente diferente, pessoas de todas as partes do mundo, com quem pude trocar muitos conhecimentos. Aprendi muito, a respeito de tudo. Sozinha num país estranho. Criar novos hábitos, novos laços, novo tudo. Mas agora estou deixando isso pra trás. A Coreia vai sempre ter um lugar especial no meu coração, onde parte das minhas melhores lembranças estão.

Como fui morar fora do Brasil – Parte 2

 

No texto anterior (aqui) expliquei como fui para a Coreia do Sul, nesse eu vou contar o que aconteceu quando resolvi não renovar meu contrato de trabalho com a empresa que me empregava lá em Busan e por que eu nao voltei pro Brasil, inclusive todo o drama e incertezas de uma fase nada fácil.

Em 2013 eu estava morando e trabalhando na Coreia e fui para a África visitar minha mãe. Eu já andava um pouco desanimada com meu emprego e possibilidades de carreira na Coreia, quando estava na África decidi que se nao desse certo onde eu estava, eu iria para a África do Sul, onde já tinha conhecido algumas pessoas e já teria inclusive lugar para morar caso me mudasse.

 

Na Africa, decidindo minha vida!

 

Em Dezembro terminei meu trabalho na empresa coreana e fui viajar pela Ásia por 1 mês. para descansar. Deixei minhas malas na casa de uma amiga na Coreia e lá fui eu. Esse 1 mês foi o suficiente para me fazer desistir da África do Sul. Pensei que a moeda de lá não é tão valorizada, então não seria fácil juntar dinheiro pra viajar, visitar a família, e também que é um país de terceiro mundo, que infelizmente tem problemas de segurança como um país de terceiro mundo tem, e eu poderia ter mais chances em algum outro lugar. Então esse meu 1 mês de férias chegou ao fim, estava em Phuket na Tailândia pronta pra fazer o check in e pegar meu voo de volta para a Coreia. Aquelas poucas horas mudaram minha vida e meu destino completamente. Resolvi não pegar o voo, e ficar mais um tempo pela Tailândia, tentar a sorte trabalhando como voluntária (e ganhando acomodação em troca). Dormi no chão do aeroporto mesmo, esperando pra pegar um ônibus no dia seguinte.

 

Eu simplesmente tinha entrado em pânico: se eu não vou mais pra África, o que vou fazer quando chegar de volta na Coreia? Voltar pro Brasil? Naquele momento percebi que tudo o que eu tinha vivido e aprendido nos 3 anos de Coreia tinham me mudado para sempre. Não  consegui mais me ver voltando pro Brasil, pra minha terra, pra minha família. Eu mudei e me tornei outra pessoa, eu não consigo nem explicar o quanto minhas experiências me modificaram e o quanto minha maneira de pensar, e viver também se transformaram. Aquela foi a primeira vez que estive sozinha e sem rumo. Tinha um dinheirinho na poupança e só. Nunca tinho sido viajante, sempre fui trabalhadora e me julgava um pouco velha (30 anos) pra encarar um mochilão. Mas lá fui eu, era o que tinha, eu precisava re-organizar minhas ideias e decidir o que fazer da vida, já que voltar pro Brasil naquela época era o meu pior pesadelo.

Ah, a Tailandia….

 

Depois de uns dias perambulando pela Tailândia encontrei um albergue que precisava de voluntários, fui parar em Koh Lanta, uma pequena ilha. O albergue era bem simples, estilo casa na árvore, com um estilo bem hippie, ou seja, tudo o que eu não era. Os mochileiros que se hospedavam lá eram os mais desencanados do mundo, músicos, artistas e nômades (mais uma vez, tudo o que eu não era). Mas me encantei. Me apaixonei pela vida simples. Eu estava com 30 anos e tinha passado meus últimos 10 anos trabalhando das 8 às 6 sentada em frente a um computador ganhando dinheiro pra pagar contas. Amava trabalhar com pessoas, de pés descalços, ir para a praia quando eu quisesse e ver o pôr do sol. 

 

Meus colegas de Albergue

 

Era uma vida maravilhosa, porém irreal, já que em algum momento a poupança acabaria. Estava há 6 semanas nesse albergue até que percebi que precisava sair de lá. Aquela vida simples estava me dando as melhores experiências da minha vida, porém estava me atrasando, durante todo o tempo que estive lá, nunca sequer peguei o computador para procurar emprego ou pensar pra onde ir. Lembrei de uma amiga indiana que conheci no Vietnã. Ela sempre me convidava para ir pra casa dela na Malásia, então eu resolvi ir. Seriam 2 semanas pra eu me “desintoxicar” da Tailândia e me mudar de vez pra algum lugar. Ela morava em Johor Bahru, uma cidadezinha na Malásia que é vizinha a Cingapura. Depois de visitar Cingapura algumas vezes com essa amiga, finalmente resolvi: quero morar aqui! Terminei ficando 5 semanas na casa dela, me organizando para ir para Cingapura. Um belo dia simplesmente fui!

 

O dia exato que fui pra Cingapura

 

Cheguei no meu novo país com minhas mochilas nas costas é consegui alugar um quarto num apartamento compartilhado. O aluguel era mensal, então era seguro para mim. Usei essa estratégia aqui, e foquei pesado para conseguir um emprego. Menos de 2 meses depois fui empregada por uma multinacional enorme, e consegui um visto de trabalho que me permitia ficar em Cingapura. Foi um alívio, depois de tanto tempo ter um emprego de novo, a primeira coisa que fiz foi voltar pra Coreia para buscar minhas malas que ficaram 6 meses na casa da minha amiga, e também consegui adiar o início do meu contrato em 1 semana, é fui visitar minha família no Brasil, que não via há muito tempo.

Minha experiência em Cingapura eu defino como “acordei com o pé esquerdo todos os dias”, mas isso é assunto pra outro post, em outra hora!!

 

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Como fui morar fora do Brasil (e não voltei mais)

Muita gente quer morar no exterior, mas esse nunca foi meu sonho, aqui tento explicar como isso aconteceu comigo, e como isso se tornou algo tão importante pra mim que não consigo mais me ver voltando pra morar no Brasil.

Em 2011 eu tinha um emprego normal, trabalhava pra uma grande empresa como compradora senior de equipamentos importados. A maior parte dos fornecedores com quem eu tratava eram Coreanos. Um belo dia meu chefe resolveu me mandar pra lá Coreia pra tratar diretamente com esses fornecedores. Eu era casada (final de um casamento falido) e aquela viagem de 2 meses não poderia ter vindo em melhor hora.

Foi assustador ir pra Coreia sozinha, sem falar a lingua do país e ainda por cima lidar com toda aquela comida e costumes tão diferentes dos nossos. Foram 2 meses bem tímidos, só trabalhando muito e passeando nos finais de semana pra conhecer os lugares e tirar fotos. No final dos 2 meses voltei pro Brasil e com 2 dias da minha chegada, pedi o divórcio!

Meu chefe na época, que não era bobo nem nada, aproveitou que eu estava mais livre que nunca e me mandou pra Coreia de novo. Dessa vez por 4 meses, os 4 meses que mudaram minha vida! Dessa vez eu resolvi que ia aproveitar mais meu tempo lá e procurei por grupos online pra ir conhecer pessoas, conheci um grupo maravilhoso de brasileiros, e também de estrangeiros (não coreanos) professores de ingles e me apaixonei. Me apaixonei por descobrir coisas novas sobre diferentes culturas a cada dia, por ter amigos de diversos países e por ver como a vida poderia ser diferente. Depois disso eu não quis mais voltar.

 

Eu trabalhava de dia e de noite por causa do fuso horário do Brasil, mas aproveitava cada minuto que eu tinha livre. Trocava experiências com esses amigos novos, explorava lugares novos, ia pra jantares nas casas das outras pessoas e para os tantos festivais que aquela cidade tinha. Foi muito bom. Além de estar descobrindo uma vida no exterior, eu estava também descobrindo quem eu era, uma vida solteira depois de tanto tempo em um relacionamento que não deu certo.

No final dos 4 meses voltei pro Brasil e quando percebi que minha empresa não ia me mandar mais pra a Ásia, comecei a me organizar. Usei todos os meus contatos que tinha na Coreia e comecei a pedir emprego. Um deles pareceu estar bem inclinado a me empregar, e isso foi o soficiente pra eu pedir demissão, arrumar 2 malas de 32kg e me mudar de vez pra Coreia. Não foi fácil explicar pra família e conseguir o apoio deles.

Depois disso é só estória. Meu contato realmente me conseguiu um emprego, e foi uma novela pra aprovar o visto (vistos, isso é conversa pra outro post), então fiquei muito tempo de molho esperando. Finalmente depois de 8 meses comecei a trabalhar na Coreia, em uma empresa Coreana que tinha clientes brasileiros, eu falava português e ingles no escritório. Foi sem dúvida uma época de descobertas.

Eu tracei meu caminho no exterior, depois da Coréia fui viajar, passei uns 6 meses mochilando pela Ásia até que descobri Singapura. Cheguei lá de mochila nas costas e consegui um emprego em uma multinacional gigante (conseguir empregos é de outro post: aqui), e depois de Singapura ainda vim parar na Austrália, onde estou até hoje!

 

Continua aqui….